Carbono no solo: como o manejo sustentável pode transformar o potencial do agro


Tecnologias baseadas em laser identificaram aumento de até 50% nos estoques de carbono em áreas do Cerrado com práticas de manejo sustentável

Quando se fala em carbono e mudanças climáticas, é comum pensar nas emissões de gases de efeito estufa. Mas o solo também desempenha um papel importante nesse cenário: além de sustentar a produção agrícola, ele pode armazenar grandes quantidades de carbono na matéria orgânica.

Um estudo conduzido pela Embrapa Instrumentação, em parceria com a Bayer, encontrou um aumento de até 50% nos estoques de carbono do solo em propriedades agrícolas do Cerrado que adotam práticas de manejo sustentável, como o plantio direto. A pesquisa também utilizou técnicas baseadas em laser para tornar a quantificação do carbono mais rápida e com menor custo.

O que o manejo do solo tem a ver com carbono?

O carbono presente no solo está diretamente relacionado à matéria orgânica, formada por resíduos vegetais, microrganismos e outros compostos orgânicos em diferentes estágios de decomposição.

Práticas agrícolas que favorecem a conservação e o aumento da matéria orgânica podem contribuir para o acúmulo de carbono no solo. Entre elas está o plantio direto, sistema que reduz o revolvimento do solo e mantém uma cobertura vegetal sobre a superfície.

Além do potencial de armazenamento de carbono, a manutenção da matéria orgânica está associada a características importantes para a produção agrícola, como a fertilidade, a retenção de água e a qualidade do solo. Dessa forma, o manejo sustentável pode contribuir simultaneamente para a produtividade e para a resiliência dos sistemas agrícolas.

O que a pesquisa encontrou?

Realizado ao longo de cinco anos, o estudo acompanhou 11 fazendas comerciais nos biomas Cerrado, Mata Atlântica e Pampa, com sistemas de produção envolvendo culturas como soja, milho e algodão sob plantio direto.

No Cerrado, os pesquisadores identificaram aumento de até 50% nos estoques de carbono em propriedades que adotavam práticas de manejo sustentável. Em algumas das áreas analisadas, o estoque chegou a aproximadamente 250 toneladas de carbono por hectare, enquanto a vegetação nativa utilizada como referência apresentava cerca de 155 toneladas por hectare.

Os resultados, entretanto, não foram iguais em todos os biomas. Na Mata Atlântica, por exemplo, houve redução dos estoques de carbono associada à mudança do uso da terra, enquanto no Pampa os estoques se mantiveram. Isso reforça a importância de considerar as características de cada ambiente e sistema de produção ao avaliar o carbono armazenado no solo.

Como o laser ajuda a medir o carbono?

Uma das principais novidades do estudo está justamente na tecnologia utilizada para realizar essas medições.

Os pesquisadores aplicaram duas técnicas de espectroscopia: a espectroscopia de plasma induzido por laser (LIBS), utilizada para quantificar o carbono, e a espectroscopia de fluorescência induzida por laser (LIFS), empregada para analisar características e a estabilidade química da matéria orgânica do solo. Mais de mil amostras foram analisadas com a técnica LIFS.

A utilização do LIBS apresentou vantagens em relação aos métodos laboratoriais convencionais, especialmente pela possibilidade de reduzir o tempo e o custo das análises. Segundo os pesquisadores, isso pode facilitar o monitoramento de grandes áreas agrícolas, uma necessidade importante em um país de dimensões continentais como o Brasil.

Por que isso importa para o mercado de carbono?

Para que um projeto de carbono seja confiável, não basta afirmar que determinada prática agrícola aumenta o armazenamento de carbono. É necessário medir, monitorar, relatar e verificar esses resultados.

É justamente nesse ponto que tecnologias de mensuração ganham importância. Métodos mais rápidos, acessíveis e capazes de gerar dados confiáveis podem facilitar o acompanhamento das mudanças nos estoques de carbono e contribuir para processos de certificação e monitoramento.

A tecnologia LIBS utilizada no estudo, inclusive, já é aceita para a quantificação de carbono no solo por uma das principais certificadoras do mercado voluntário de carbono, a Verra. As ferramentas desenvolvidas a partir da pesquisa também estão disponíveis comercialmente por meio da spin-off da Embrapa, a Agrorobótica.

Isso abre espaço para uma questão cada vez mais relevante: como transformar o carbono armazenado no solo em dados confiáveis, rastreáveis e capazes de gerar valor para o produtor?

A resposta passa pela combinação entre ciência, tecnologia, manejo sustentável e mecanismos de mercado.

Do solo ao futuro do agro

O estudo mostra que o solo pode ser mais do que uma base para a produção agrícola. Quando manejado de forma adequada, ele também pode contribuir para o armazenamento de carbono, a retenção de água, a qualidade do solo e a resiliência dos sistemas produtivos.

Ao mesmo tempo, a capacidade de medir esse carbono de maneira mais rápida e com menor custo pode ser um passo importante para ampliar a aplicação de estratégias de carbono no setor agropecuário.

Para o Brasil, que possui uma extensa área agrícola e grande diversidade de sistemas produtivos, desenvolver soluções capazes de mensurar e monitorar o carbono no solo representa uma oportunidade de aproximar a produção agrícola das estratégias de sustentabilidade e do mercado de carbono.

Mais do que armazenar carbono, o desafio está em medir esse armazenamento, comprovar seus resultados e transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis no campo.

Fonte

EMBRAPA. Laser revela aumento de carbono no solo em fazendas com manejo sustentável. 19 ago. 2025. Leia a publicação original da Embrapa

Referências científicas citadas pela Embrapa:
Soil organic matter dynamics and soil carbon stocks from tropical and sub-tropical areas under no-till: An on-farm research, publicado na revista Catena; e Laser-induced breakdown spectroscopy as an analytical tool for total carbon quantification in tropical and subtropical soils: evaluation of calibration algorithms, publicado na Frontiers in Soil Science.

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