Contribuições dos fertilizantes organominerais para uma agricultura sustentável

 Contribuições dos fertilizantes organominerais para uma agricultura sustentável

Por Estevão Freire - Escola de Química - UFRJ


O agronegócio brasileiro, responsável por aproximadamente 23,5% do PIB em 2024

(CNA Brasil, 2025), enfrenta o desafio da alta dependência de fertilizantes

importados, com 86% do consumo nacional suprido por importações em 2023

(ApexBrasil, 2025). Essa vulnerabilidade expõe o setor a flutuações de preços e

instabilidades geopolíticas, comprometendo a segurança alimentar e a

sustentabilidade da produção (Forbes, 2025; CNA Brasil, 2024). Em resposta, o Plano

Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022 busca reduzir essa dependência, com a

meta de atender entre 45% e 50% da demanda interna até 2050 (BRASIL, 2021).

Além da dependência externa, outros aspectos relevantes do agronegócio brasileiro

está relacionado à fertilidade dos solos nacionais, com grande parte das terras

agrícolas possuindo solos ácidos e deficientes em nutrientes, exigindo a aplicação

contínua de fertilizantes. Estudos apontam que 63% dos solos brasileiros são

afetados por toxidez de alumínio e 25% possuem alta capacidade de fixação de

fósforo (Martha Jr., 2007).

Além disso, há uma deficiência generalizada de macronutrientes, como Nitrogênio,

Fósforo e Potássio, e micronutrientes, tornando a suplementação via fertilizantes

indispensável. O baixo teor de matéria orgânica também é um fator limitante, pois a

matéria orgânica é crucial para a estrutura do solo, retenção de água e nutrientes, e

sua baixa concentração compromete a saúde e a produtividade do solo . Estima-se

que cerca de 30% das terras agrícolas no Brasil estejam degradadas devido a práticas

de manejo inadequadas, como o uso excessivo do solo e a falta de técnicas de

conservação, levando à erosão e perda de solo fértil. Por fim, o uso intensivo de

máquinas e a falta de rotação de culturas podem levar à compactação do solo,

dificultando a penetração das raízes e a absorção de água e nutrientes (EMBRAPA,

2026).

Nesse cenário, torna-se imprescindível a busca por alternativas sustentáveis e o

consequente fortalecimento da cadeia produtiva nacional de fertilizantes. Diante

disso, os fertilizantes organominerais (FOM) surgem como uma solução promissora,


alinhada à Política Nacional de Resíduos Sólidos. Regulamentados pelo MAPA, os

FOM utilizam resíduos orgânicos da pecuária, agricultura e agroindústria,

transformando passivos ambientais em insumos agrícolas de alto valor agregado

(MAPA, 2026).

De acordo com a legislação brasileira, conforme o Decreto n° 4954/2004,

fertilizantes são definidos como “substância mineral ou orgânica, natural ou

sintética, fornecedora de um ou mais nutrientes de plantas” (BRASIL, 2004), onde os

fertilizantes organominerais, que são o foco deste estudo são definidos como o

“produto resultante da mistura física ou combinação de fertilizantes minerais e

orgânicos”. Outras classificações incluem mononutrientes, binários, ternários, com

outros macronutrientes e micronutrientes, e variações de fertilizantes minerais e

orgânicos (simples, mistos, complexos ou compostos), dependendo de sua

composição e processo de obtenção.

A utilização conjunta de matéria orgânica e nutrientes minerais (NPK) resulta em

maiores ganhos de produtividade. Os fertilizantes organominerais não apenas

favorecem a produção agrícola, como também melhoram a eficiência do solo e

contribuem para o sequestro de carbono. Além disso, pesquisas apontam que os

FOM podem substituir, de forma parcial, os fertilizantes químicos convencionais,

sem comprometer o desempenho agronômico (Heizen, 2026).

Outro aspecto relevante é o seu caráter ambientalmente positivo: os FOM permitem

o aproveitamento de resíduos de diferentes cadeias produtivas como matéria-prima,

transformando passivos ambientais em insumos agrícolas. O processamento desses

resíduos é relativamente simples, de baixo impacto e ainda enriquece a fração

orgânica do fertilizante, por meio da incorporação de carbono orgânico (Benites et

al., 2010).

Diversas fontes de matéria orgânica podem ser aproveitadas na adubação, sendo

algumas delas cada vez mais utilizadas por oferecerem elevada concentração de

nutrientes, facilidade no manuseio e menor risco sanitário. Além dessas vantagens,

fatores logísticos também influenciam na seleção da fonte mais apropriada. Entre os

materiais mais utilizados destacam-se os dejetos animais, especialmente de frangos

de corte, os resíduos gerados pela indústria sucroalcooleira, a turfa e os subprodutos

da indústria de papel e celulose (Oliveira, 2019).


No que se refere especificamente aos fertilizantes organominerais, o Brasil

apresenta condições bastante favoráveis, já que conta com ampla disponibilidade de

resíduos agroindustriais que podem ser transformados em matéria-prima para a

produção desses insumos. Isso representa tanto uma solução para passivos

ambientais quanto uma oportunidade de inovação sustentável. Enquanto no cenário

internacional as tendências em fertilizantes caminham para a eficiência,

sustentabilidade e digitalização dos processos, o Brasil tem diante de si o desafio de

direcionar esforços para fortalecer a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação em

fertilizantes organominerais. O avanço nessa área pode colocar o país em posição de

destaque, unindo ganhos de produtividade agrícola à preservação ambiental e ao

aproveitamento inteligente de recursos internos (Cruz et al, 2017).

Segundo a Abisolo (ABISOLO, 2026), o mercado brasileiro de fertilizantes especiais,

no qual se inserem os organominerais, apresentou crescimento expressivo nos

últimos anos. Em 2025, o faturamento com fertilizantes organominerais (Fluidos e

Sólidos) apresentou crescimento de 9,0% em comparação com o obtido em 2024,

refletindo o aumento da conscientização dos produtores sobre práticas agrícolas

sustentáveis e a ampliação das exigências do mercado consumidor por alimentos

com menor pegada ambiental.

O uso de resíduos como matéria-prima para fertilizantes representa uma importante

estratégia de economia circular, ao reaproveitar subprodutos agroindustriais e

reduzir a dependência de fontes minerais não renováveis (Pires et al, 2024). A

valorização de resíduos ricos em nutrientes, como lodos de esgoto, cama de aviário,

tortas vegetais e cinzas de biomassa, insere-se em um modelo de produção mais

eficiente e resiliente. Essa abordagem não apenas contribui para a segurança

alimentar e energética, como também reduz a emissão de metano e outros

poluentes associados à disposição inadequada de resíduos orgânicos (Hegde, 2025).

A adoção de fertilizantes organominerais produzidos com base nesses insumos está

alinhada com os princípios da agroecologia e da intensificação sustentável da

agricultura.

Referências

ABISOLO, Anuário Brasileiro de Tecnologia para Produção Vegetal, 2026.


APEXBRASIL – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Site

institucional. Brasília: ApexBrasil, 2025. Disponível em: https://apexbrasil.com.br/.

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